Achei essa entrevista um tempo atrás na internet, achei muito interessante e resolvi publicá-la aqui.
Márcio Noronha é um dos mais respeitados grafistas do Brasil e seu método operacional, Simetria Sanfonada, é seguido por milhares de pessoas por ser um método simples, funcional e seguro. A entrevista foi concedida ao fundador da DMC Invest, Daniel de Carvalho.
DANIEL DE CARVALHO: Márcio, como você iniciou sua vida de trader?
Como foi o aprendizado?
MÃRCIO NORONHA: Minhas primeiras operações foram estimuladas peloMarcelo Leite Barbosa, dono da corretora M. Marcelo Leite Barbosa, onde eu trabalhava como gerente da mesa de open-market em 1966/1967. A sala, onde eu operava, era a mesma em que eram transmitidas para o pregão as ordens de compra e venda dos clientes da corretora, através de um telefone de magneto conectado com o operador de pregão. Como ele estava sempre lá, e eu estava ganhando muito bem, com freqüência ele dizia que eu deveria aplicar parte do meu dinheiro em ações. Um dia, acabei convencido e comprei umas ações da Samitri. Foi o start para uma longa viagem até o céu e dali, para o inferno!
No inÃcio, recém formado em Ciências Econômicas pela antiga Faculdade Nacional de Ciências Econômicas (hoje UFRJ) e, orientado pelo Marcelo, fazia as minhas aquisições baseado nos fundamentos das empresas. Naquela época, dava-se muita importância ao P/L e ao valor patrimonial. Apesar de formado em economia, fui um aluno relapso, que só estudava nas vésperas das provas e formei-me sabendo muito pouco de contabilidade. Assim, passei a confiar nas análises feitas pelo Dr. Friedman, responsável pelo departamento de análise da corretora.
DANIEL DE CARVALHO: Você sempre foi adepto da análise técnica?
MÃRCIO NORONHA: Não. No começo, embora eu não soubesse fazer… utilizava a análise fundamentalista.
DANIEL DE CARVALHO: Você já errou totalmente ao tomar uma decisão e
foi pego de surpresa pelo mercado?
MÃRCIO NORONHA: No inÃcio da década de noventa, depois de ter assistido a ação da Sharp valer cerca de U$65.00, no topo do Cruzado, em 1986… após 4 anos, estava valendo cerca de 10 centavos. Tinha vendido um apartamento, por algo em torno de U$70,000.00 e, achando que o preço tivesse caÃdo muito, decidi aplicar tudo em Sharp. O tempo foi passando e o preço continuou caindo, até que um dia a empresa faliu e as ações simplesmente foram retiradas da minha custódia na bolsa. Esta foi uma decisão errada. A lição extraÃda foi que, nenhum preço é tão baixo que não possa cair mais! Um pouco antes, acho que em março de 90, eu administrava a carteira de uma distribuidora (Trader DTVM), onde era um dos sócios e estava bastante comprado quando o Fernando Collor foi eleito e decretou o Plano Collor. As ações tiveram uma grande queda, mas o tempo se encarregou de consertar o inesperado.
DANIEL DE CARVALHO: Em que mercados você já operou? Tem algum favorito?
MÃRCIO NORONHA: Basicamente, já operei no mercado de renda fixa e tÃtulos federais na época do open; no mercado à vista, termo e opções na BVRJ e na BOVESPA; nos mercados futuros de dólar, DI, bovespa, café, boi gordo na BM&F. Mas, prefiro operar no mercado à vista.
DANIEL DE CARVALHO: Qual o maior triunfo na sua vida de trader?
MÃRCIO NORONHA: Foram muitos. De 1966 a junho de 1971, praticamente só fiz operações a termo vencedoras e não me lembro dos detalhes… mas saà do zero para um patrimônio na época em torno de U$8,000,000.00.
DANIEL DE CARVALHO: Você tem alguma operação que considera inesquecÃvel?
MÃRCIO NORONHA: Três rolagens seguidas de um termo de Belgo em que, no vencimento da última, meu preço estava em torno de 22,00 e, na bolsa, ela estava sendo negociada a 4,00.
DANIEL DE CARVALHO: Em que momento da sua vida você decidiu criar um método próprio?
MÃRCIO NORONHA: Não foi uma decisão… desde 1984, quando tome contato com a análise técnica (AT), estava à busca de um meio de vencer no mercado. Na época, a AT não era muito utilizada aqui no Brasil e ainda havia muito pouco material de estudo disponÃvel. A saÃda foi a compra de livros importados dos EUA e, quando possÃvel, viajar e fazer cursos no exterior.
Apesar do esforço, o meu patrimônio não aumentava, pelo contrário… diminuÃa! O resultado dessa busca acabou sendo o aumento da minha cultura técnica, mas só ficou nisso.. Em 1991/92, desisti de operar tomando eu mesmo as decisões e parti para o desenvolvimento de um sistema mecânico. Depois de meses de pesquisa, achei que havia encontrado a minha mina de ouro e os meus problemas tinham terminado… mas, acabei derrotado pela emoção e pela falta de disciplina. Dizem que quando uma mulher passa por um perÃodo de má sorte, compra um novo vestido… Agora, quando um trader tem um perÃodo de má sorte, compra um novo sistema! Assim, voltei aos livros, na busca da pedra filosofal. Um dia, ouvi falar do Fenômeno Delta, uma metodologia descrita no livro “The Delta Phenomenon†de Welles Wilder, autor de quem já havia lido outros livros e que eu considerava uma fera. Afinal de contas, o cara tinha inventado o IFR, o Sistema Parabólico, o Movimento Direcional… entre outras ferramentas amplamente utilizadas pelos analistas técnicos e constantes em qualquer programa de análise técnica. Decidi comprar o livro e, impressionado com o que ele revelava, acabei indo fazer um seminário com o próprio em Greensboro, na Carolina do Norte. Voltei cheio de esperanças com o que vira, achando que, finalmente, tinha encontrado a fórmula vencedora. Mas, com o passar do tempo, descobri que foi outra ilusão !!!
Antes de chegar a esta conclusão… já tendo retornado ao RJ, fui visitar um amigo e logo que caminhei para a sua sala, passei por uma estante, onde vi um livro denominado “The Adam Theory of Markets†do mesmo autor do Delta. Perguntei do que se tratava e ele disse que era uma teoria maluca. Curioso, pedi o livro emprestado… mas ele disse que não emprestava o livro, mas deixaria tirar um xerox. A sugestão foi prontamente aceita, e assim, voltei para casa com uma cópia. Conheci a Dupla Reflexão e me senti profundamente afetado pela fábula da “Terra do Mercadoâ€. Quando li o texto, senti um estalo… uma enorme sensação de mudança da maneira como eu via o mercado até então. A frase inicial do livro Timing, de que “o mercado é um jogoâ€, veio a minha mente e tudo começou a fazer sentido!!!
DANIEL DE CARVALHO: Como vc criou a Simetria Sinfonada?
MÃRCIO NORONHA: Não a criei… o que fiz foi adaptar o sistema de projeção de preços, criado pelo Jim Sloman, através da simetria projetada pela dupla reflexão, para um formato que me pareceu mais simples e objetivo, no momento de definir os pontos de compra/venda. Batizei com este nome porque foi o que parecia fazer sentido naquele momento.
DANIEL DE CARVALHO: Você testou muita coisa antes de definir seu método?
MÃRCIO NORONHA: Acho que o primeiro sistema que utilizei foi criado pelo Dr. Alexander Elder, um dos fundadores da Computrac (empresa que desenvolveu um dos primeiros programas de análise técnica vendidos no mercado), denominado “Triple Screen†que combinava o uso de um rastreador para definir a tendência secundária de um ativo (MACD ou o Movimento Direcional) associado a um oscilador plotado sobre o gráfico diário (IFR ou Estocástico), para detectar o estado de sobrecomprado/ vendido e operar a favor da tendência de predominante, quando a correção de curto prazo estivesse terminando. Comigo, não deu certo, porque ainda estava no inÃcio dos meus estudos e as situações de enquadramento das duas condições só ocorriam em mercado de forte tendência e, na época, não conseguia perceber e compreender isso… sentia necessidade de operar com muito mais freqüência e acabei deixando-o de lado. Mais adiante, conforme mencionei acima, trabalhei com sistemas mecânicos, normalmente com o uso combinado de médias móveis e também de médias móveis combinadas com osciladores e rastreadores… mas acabei sendo derrotado pela falta de disciplina. A lei de Murphy fez o seu papel! Também utilizei a metodologia do Delta, trabalhei com as Ondas de Elliott, e muitas outras coisas, que também não me levaram a lugar algum.
DANIEL DE CARVALHO: Na sua opinião, qual a maior ilusão que um trader iniciante pode ter na análise técnica?
MÃRCIO NORONHA: Que é fácil ganhar dinheiro no mercado.
DANIEL DE CARVALHO: Quais são as caracterÃsticas de um trader de sucesso na sua visão?
MÃRCIO NORONHA: Primeiro, uma metodologia confiável na definição dos pontos de compra e venda, bem como, na colocação dos estopes. Tão importante quanto, é uma polÃtica de administração dos recursos, isto é, um rÃgido controle de risco do tipo “não se pode expor mais do que 3% do seu patrimônio numa única operação ou em conjunto…†ou qualquer outra fórmula, mas é indispensável que se tenha alguma. Forte disciplina através de regras claras e bem definidas para iniciar e encerrar qualquer operação, conforme programado antes da abertura do mercado, ou antes de iniciar uma operação de daytrade. E… controle emocional para fazer o que tiver de ser feito sem hesitação.
DANIEL DE CARVALHO: Qual a sua maior virtude como trader?
MÃRCIO NORONHA: Reconhecer a minha ignorância e não tentar antecipar nenhuma estratégia previamente definida, esperando o timing correto para dar o bote.
DANIEL DE CARVALHO: Qual o seu maior defeito como trader?
MÃRCIO NORONHA: Sou covarde nas minhas apostas. Depois de ter conhecido o céu e o inferno, não consigo mais me alavancar.
DANIEL DE CARVALHO: Você já fez daytrades?
MÃRCIO NORONHA: Muitas vezes… daytrades e “daytrolhasâ€. Mas, não é mais a minha praia. Não sinto mais prazer em passar o dia diante do monitor.
DANIEL DE CARVALHO: Acredita em sistemas baseados em daytrades?
MÃRCIO NORONHA: Certamente… como também acredito em sistemas para periodicidade mais longas. Só que, pelo meu temperamento, prefiro eu mesmo selecionar as operações.
DANIEL DE CARVALHO: Qual é a maior vantagem da análise gráfica sobre a análise fundamentalista na sua opinião?
MÃRCIO NORONHA: A universalidade!!! Basta um banco de dados e um programa de análise gráfica para operar qualquer mercado, onde os preços se formem livremente através da oferta e da procura, sem precisar saber nada sobre os fundamentos do ativo negociado.
DANIEL DE CARVALHO: Você acha que todo fundamentalista precisa saber o mÃnimo de análise técnica?
MÃRCIO NORONHA: Acho desnecessário… porque não existe uma preocupação de timing e sim se a ação está sendo negociada abaixo ou acima do seu valor mercado. Está aà o Warren Buffet para não me deixar mentir.
DANIEL DE CARVALHO: E todo grafista, precisa saber o mÃnimo de análise fundamentalista?
MÃRCIO NORONHA: Posso responder por mim… não tenho o menor interesse pelos fundamentos por trás dos ativos que opero. Acho que o fundamento já está embutido no preço do mercado.
DANIEL DE CARVALHO: Você acha viável um trader viver de suas operações?
MÃRCIO NORONHA: Acho… mas sei que é uma tarefa difÃcil. Será mais fácil na medida em que o ganho não seja condição de sobrevivência, isto é, que exista uma outra fonte de renda que lhe dê a tranqüilidade necessária para seguir as estratégias traçadas. Dessa forma, ficará muito mais fácil controlar o emocional e seguir à risca o planejado.
DANIEL DE CARVALHO: Você vive de suas operações?
MÃRCIO NORONHA: De 1996 até 2000, trabalhando em casa, e começando a utilizar a técnica da Simetria Sanfonada, vivi basicamente das minhas operações, ainda que não fossem lá essas coisas… o saldo sempre foi positivo. De lá para cá, continuo operando, mas a minha renda de sobrevivência veio de parcerias feitas inicialmente com o Investshop e desde 2002, com a Ãgora. Também tenho uma remuneração com os cursos e a venda de livros.
DANIEL DE CARVALHO: A operação que rendeu mais dinheiro foi baseada em análise gráfica?
MÃRCIO NORONHA: Não, foi uma operação de arbitragem com ações da Belgo Mineira no primeiro semestre de 1971.
DANIEL DE CARVALHO: A operação com maior perda foi baseada em analise gráfica?
MÃRCIO NORONHA: Não, foi baseada na ganância e na ignorância. Na verdade, não foi uma… foram várias simultâneas quando depois do topo de junho de 1971, acreditando que as quedas que se sucederam eram somente correções, como as que havia ocorrido de 1967 a 1971, continuei a rolar as minhas compras a termo (dobrando o lote a cada rolagem para fazer preço médio e apressar a recuperação dos prejuÃzos).
DANIEL DE CARVALHO: Qual a recomendação que você daria para um trader que está começando no mercado?
MÃRCIO NORONHA: Antes de começar, procure informações sobre as várias metodologias. Depois de escolher a que lhe parecer mais adequada ao seu perfil, prepare-se adequadamente através de leituras, cursos, seminários.. Se tiver optado pela análise técnica… antes de colocar dinheiro no mercado, passe algum tempo treinando o uso da metodologia que escolheu, seja através de simulações (tipo da folha de São Paulo) ou com algum programa de análise técnica que permita voltar no tempo e ir entrando com novas barras, como se fosse o desconhecido, para ganhar confiança.
DANIEL DE CARVALHO: Existe fórmula para o sucesso?
MÃRCIO NORONHA: Lendo o livro dos Magos do Mercado, percebi que existem várias… mas por trás de todas elas está sempre presente um rÃgido controle de risco e forte disciplina emocional.
DANIEL DE CARVALHO: Recomenda algum livro para traders?
MÃRCIO NORONHA: Embora suspeito… recomendo o meu para formar uma cultura técnica. O Timing, do Granville, para aprender sobre a psicologia do mercado, e o “Trading By the Bookâ€, do Joe Ross para aprender sobre as estratégias operacionais.
DANIEL DE CARVALHO: Existe algum trader que você admira?
MÃRCIO NORONHA: Nunca tive a oportunidade de sentar ao lado de algum grande trader e acompanhar as suas operações no dia-a-dia para poder dizer que admiro algum. Mas, nesses quase quarenta anos de mercado, principalmente de 90 para cá, tenho acompanhado, a uma certa distância, as operações no Ãndice futuro do Celso M…, um ex-operador de pregão, acho que, da década de 60 e 70, que se tornou um grande investidor. Nunca vi ninguém acertar tanto!!! Sei que ele faz uso da análise técnica, mas também, que é muito intuitivo. Acho que, de vez em quando, baixa um santo e lhe diz o que fazer. O fato é que, ao longo dos anos, o seu patrimônio só cresce e, no final, é isto o que conta!!!
DANIEL DE CARVALHO: Alguma história interessante que já vivenciou no mercado financeiro?
MÃRCIO NORONHA: No final de 1970, meu irmão era gerente de uma loja da corretora M.Marcello Leite Barbosa, em Copacabana, na galeria do cinema Condor, na esquina da rua Figueiredo Magalhães com a rua Barata Ribeiro.
Era uma loja voltada para atendimento de pessoas fÃsicas, numa época em que as corretoras se preocupavam em dar um bom atendimento aos pequenos e médios investidores. Um desses clientes, uma senhora de origem belga, um dia, esqueceu ou deixou na loja um jornal da Bélgica. Meu irmão, que dominava o francês, num momento de folga, resolveu ler o jornal e qual não foi a sua surpresa quando, na página financeira onde eram exibidas as cotações dos ativos negociados na Bolsa de Bruxelas, viu a cotação da Belgo Mineira. Ao fazer a conversão do preço em franco belga para cruzeiro, encontrou uma diferença muito grande e achou que não deveria ser a mesma ação negociada nas bolsas brasileiras. Decidiu, então, ligar para mim e contar sobre a coincidência, deixando-me com uma pulga atrás da orelha. Decidi, então, investigar… tentando não levantar nenhuma suspeita.
Através de um conhecido, que trabalhava num grande banco estrangeiro, entrei em contato com o dirigente de uma corretora belga que me informou que, o que era negociado na bolsa, eram procurações de exfuncionários da Belgo que trabalharam, no Brasil, durante a implantação da Siderúrgica e que, nos anos que aqui viveram, receberam ações da empresa como gratificação e depois voltaram ao seu paÃs de origem. A quantidade das ações, nas procurações, correspondia ao mesmo número de ações no Brasil.
Rapidamente, fiz alguns contatos e, mediante garantia dada em custódia com procuração de venda de um valor maior em ações da Petrobrás, obtive uma linha de crédito no valor de U$1,000,000.00, bem como uma apresentação para uma corretora em Bruxelas. No dia seguinte, embarquei para Paris, e na manhã do outro dia, cheguei de trem em Bruxelas.
Para não me alongar, consegui comprar quase U$800.000 em procurações e, num espaço de 10 dias úteis, vendi as ações por uma valor aproximado de U$4.000.000 sem botar nenhum centavo na operação, a não ser as despesas de viagem !!! O meu patrimônio tinha acabado de dobrar de tamanho…
15/07/2008 19:23
Excelente reportagem! Muito bom e com um conteúdo muito rico. Parabéns pelo trabalho!!!
Abs.
23/07/2008 6:37
[…] Recentemente encontrei uma antiga entrevista com Márcio Noronha no blog Trader Sem Mistérios. […]
29/07/2008 11:23
Não se iludam. É preciso muito estudo e perÃcia e principalmente controle emocional para operar baseado em análise técnica.
Saudações
30/07/2008 16:13
Sim Paulo César, concordo plenamente com você. O trader precisa de conhecimento e prática em análise técnica, para que consiga desenvolver um plano que seja adequado ao seu perfil, até atingir o sucesso. Não é um caminho dos mais fáceis até chegar lá, mas também não é dos mais difÃceis, desde que se tenha cautela, bom senso e controle da ganância que consome a todos nós.